Povos da Floresta
No Pará, os povos da floresta são parte viva da Amazônia. Indígenas, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas e pescadores artesanais formam uma rede de comunidades que mantém uma relação direta com os rios, as matas, os ciclos das chuvas, os alimentos e os saberes herdados de seus ancestrais. Mais do que populações tradicionais, eles são guardiões de territórios fundamentais para o equilíbrio climático, a conservação da biodiversidade e a defesa da floresta em pé.
Esses povos vivem do manejo sustentável dos recursos naturais. Nas margens dos rios, comunidades ribeirinhas combinam pesca, roça familiar, extrativismo e pequenos cultivos. Segundo o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, os ribeirinhos estão presentes em todo o país, com destaque para a Amazônia, e têm na pesca, no extrativismo e na agricultura familiar atividades centrais de sobrevivência.
Entre os extrativistas, a floresta é fonte de renda, alimento e identidade. Castanha, borracha, óleos vegetais, frutos, sementes e plantas medicinais compõem uma economia baseada no uso cuidadoso da natureza. Já os quilombolas carregam a memória da resistência negra e mantêm modos próprios de organização social, produção e proteção territorial. Os povos indígenas, por sua vez, seguem como protagonistas na defesa da Amazônia, especialmente em regiões estratégicas como a bacia do Xingu.
A importância desses grupos vai além da cultura. Estudos do IPAM Amazônia destacam que povos indígenas e comunidades tradicionais desempenham papel essencial na conservação das florestas tropicais e dos estoques de carbono, ajudando a evitar emissões de gases de efeito estufa por meio da proteção de seus territórios. Em outras palavras, onde há território tradicional protegido, há maior chance de floresta preservada.
No Pará, essa realidade ganha força em áreas como o Xingu, onde indígenas e ribeirinhos enfrentam pressões históricas provocadas pelo desmatamento, pela grilagem, pela mineração ilegal, por grandes obras de infraestrutura e por conflitos fundiários. A Rede Xingu+ reúne organizações locais para fortalecer a gestão territorial e a articulação entre os povos da bacia do Xingu. Manifesto da rede destaca a importância da gestão integrada de 22 Terras Indígenas e 10 Unidades de Conservação que formam o Corredor de Áreas Protegidas da Bacia do Rio Xingu.
A tecnologia também passou a fazer parte dessa luta. A iniciativa Conexão Povos da Floresta busca levar internet de banda larga a comunidades indígenas, quilombolas, extrativistas e ribeirinhas da Amazônia brasileira. A proposta é conectar mais de 1 milhão de pessoas, ampliando o acesso a direitos, educação, comunicação, proteção territorial e serviços públicos. O governo federal também aponta que a rede pretende alcançar mais de 8 mil comunidades em territórios protegidos da Amazônia Legal.
Em 2025, a pauta ganhou ainda mais visibilidade com a preparação para a COP30, em Belém. Organizações indígenas e de comunidades tradicionais defenderam que a conferência climática realizada na Amazônia deveria garantir participação real dos povos que vivem nos territórios mais afetados pela crise climática. Declaração política assinada pela APIB, pelo Conselho Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais e pelo G9 Indígena da Bacia Amazônica reafirmou a centralidade desses povos na luta contra a crise do clima.
Ao mesmo tempo, políticas públicas recentes passaram a reconhecer a necessidade de escuta e consulta. Em 2025, o Governo do Pará iniciou Consultas Livres, Prévias e Informadas para construir o Sistema Jurisdicional de REDD+, voltado à redução de emissões por desmatamento e degradação florestal. A previsão era realizar 40 consultas com povos e comunidades tradicionais em diferentes regiões do estado, buscando garantir participação na formulação da política e na repartição de benefícios.
Falar dos povos da floresta, portanto, é falar de futuro. São eles que conhecem os caminhos dos rios, os tempos da colheita, os sinais da mata e os limites que a natureza impõe. Suas práticas mostram que desenvolvimento e preservação não precisam caminhar em lados opostos. No Pará, onde a Amazônia é território de vida, cultura e disputa, reconhecer esses povos é reconhecer que a floresta só continuará em pé se quem cuida dela tiver voz, direitos e território protegido.
Autoria: Redação
Imagem: Imprensa Amazônica / Divulgação